Coisas da roça

Pureza do interior

Mineiro do interior é tão puro que parece malandro. É tão honesto que parece disposto a enganar. Diante dele, reencontramos a ingenuidade antiga que julgávamos não ser mais possível em meio a atual atmosfera tóxica de intolerância, ódio e cinismo, a ponto de jurarmos que está se fazendo de besta, fingindo para passar bem, querendo se beneficiar, procurando vantagem. Mas não, há almas intocadas pela mentira, ainda existem essas almas que não foram lesadas pela trapaça. No máximo, terminam sendo vítimas das péssimas companhias, exploradas indevidamente sob o manto da confiança. Porém, a maldade não parte delas. Seguem à risca a lei, a temência a Deus, o espírito ordeiro de pagar as contas em dia e de se sentirem absolutamente desconfortáveis numa injustiça. Abrem a porta da casa jamais imaginando que serão assaltadas. Dão carona a um perdido na estrada jamais supondo uma situação de perigo. Repartem o almoço não reparando na aparência. São gentis desconsiderando de onde vem a solicitação.

Não poderiam ser vistas como tolas por acreditar em quem oferece ajuda na boca do caixa, errado é quem rouba sob o disfarce da caridade. Tirar dinheiro suado de pessoas simples ou de idosos deveria gerar uma pena mais severa. O que mais dói nos golpes é quando eles atingem essa gente cândida que leva as palavras ao pé da letra e não percebe as más intenções de quem se aproxima.

Particularmente, eu não suporto esse abuso. Mineiro do interior é crédulo na humanidade, de tal maneira que não se protege do inferno em sua frente. Mas é preferível ser assim do que desconfiar até que se prove o contrário. Pessimismo não é realismo, e sim desistência da fé. É uma visão bonita e corajosa ao mesmo tempo. Não gostaria que perdessem a crença no outro por culpa de impostores.

No início da carreira, a minha esposa atuava como advogada de um banco público em Governador Valadares. Na audiência, enfrentava o caso de uma senhora de setenta anos que processou a sua agência por desfalques em sua conta corrente. Havia sido orientada pelos parentes a buscar os seus direitos na Justiça. Na hora dos depoimentos, Beatriz questionou se ela não teria passado a sua senha, por distração, para alguém próximo, se não tinha desguarnecido a sua privacidade. A senhora logo respondeu, em alto e bom tom, com altivez, para todos na sala ouvirem:
– Nunca passei adiante. Continua sendo 130928, minha data de nascimento.

Ela foi desproporcionalmente sincera, quis mostrar que conhecia o acesso e não estava caduca. Ninguém riu. Todos ficaram somente assustados pelo fato dela abrir em público a própria senha, pela exposição inconsequente de sua integridade.

Mineiro do interior é como aquele córrego de água limpa que atravessa os quintais de várias casas, dribla as cercas, até desaguar na cachoeira. Não podemos poluir a sua sede cristalina pelo melhor de cada um.

Coluna de Fabrício Carpinejar no jornal O Tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 17/1/2021.
Ilustração de Hélvio.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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