Poesias e poemas

Adeus à infância

 Era dezembro, último dia de aula, 
 Estridência de gritos,
 Correria pelas escadas.
 Todos tontos de alegria,
  
 Chegava ao fim o Primário. 
 Eu pulava e corria com eles,
 Pura falsidade minha,
 Pois chorava por dentro, 
 Porque eu os amava
 E jamais voltaria a vê-los.
  
 Agora, pela frente
 Um famigerado “exame de admissão”,
 Uma espécie de vestibular para o Ginásio.
 E nos dispersaríamos
 Igual a um bando de periquitos que se espalha 
 Na imensidão do azul
 Pelo estrondo de uma espingarda…
  
 Por que pulavam, por que tanta alegria
 Se a vida iria nos separar definitivamente? 
 Por um instante, tive raiva de todos. 
 Certamente, só eu os amava,
 Só eu os considerava irmãos, irmãs,
 Só eu os teria para sempre no meu coração, 
 Só eu os teria na minha memória.
 Em que fila, em que cadeira cada um sentava, 
 Os quietos, os tresloucados,
 Os alegres e os cabisbaixos,
 Os sabichões, os medianos e os atrasados. 
 Todos igualmente amados por mim.
  
 Só me consolei um pouco
 Quando, conforme era o costume, 
 Começamos a assinar no branco algodão 
 Da farda da Escola Pública.
 – João, assina na minha!
 – Malu, deixa eu escrever…
  
 Uma lágrima escorria no meu rosto
 E alguém viu.
 Mas, eufórico, pulando como um macaco,
 Disse que era suor.
  
 Adalberto Monteiro - Pé de Ferro & Outros poemas. 
   

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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