Proseando

Férias de presente

Pena que as férias são individuais. Mas, se temos o direito de vender parte delas à empresa, poderíamos também ceder a um amigo ou familiar. Não há melhor presente do que o tempo, a moeda mais cara e mais inflacionada na atualidade. Oferecer o nosso tempo, embrulhado em carinho, sempre rende arrebatamento.

A ideia surgiu conversando com o psicanalista Mário Corso. Ele sairá de descanso por trinta dias em fevereiro. Com a notícia alvissareira, logo emendei:
– Não quer me dar dez dias de presente de aniversário antecipado?

Já antevi a cena: eu isolado numa pousada, com reflexos azulados de uma piscina na cara, ligando para agradecer o bem-estar que ele me proporcionou. Ele relaxaria e eu também e nossa amizade só teria a ganhar com duas pessoas recalibradas. Assumiria 1/3 do seu repouso. Não é muito, não é pouco, é o suficiente para desestressar. Ninguém ficaria prejudicado na história. Eu receberia um vale personalizado com tudo pago. Não sofreria com os dias não trabalhados.

Qualquer um deveria ter o direito a dedicar parte de suas férias a quem quiser e garantir uma semana livre para alguém da sua confiança: ou uma mãe chateada ou um pai exausto ou um irmão em fim de relacionamento ou uma irmã desesperançada ou para recompensar um confidente que aguentou a nossa chatice.

Também resolveria o impasse tradicional de vários casais, quando um tem o benefício e o outro não. Poderiam repartir o calendário para uma saída alternada. Porque não adianta partir de férias se todo mundo continua no sufoco e no limite da agressividade.

O ideal seria emprestar leveza aos mais próximos para jamais sofrer com a cobrança e a inveja na volta.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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