Proseando

Tadinha da tia Therezinha

Não compramos chocolate para não liquidarmos a despensa em segundos. Evitamos o mal delicioso porque somos chocólatras. Só que o chocolate em nossa casa virou tia Therezinha, na compulsão mineira de trocar o nome das coisas para despistar os crimes.

Vou para o início da história. A esposa tem a mania de adquirir uma caixa de bombons para a sua tia. Sempre que passamos no mercado, ela leva uma caixinha pensando em fazer uma visita. Tanto que, na listinha semanal, entre tomates, cebolas, feijão e arroz, está lá anotado com a minha letra: “Tia Therezinha”. Tia Therezinha é o codinome de bombons. Nem escrevemos bombons para não lembrarmos que são bombons.

Tadinha da tia em seus 86 anos, que não vê nem metade de seus presentes. Desconhece o que acontece em seu nome. Recebe uma remessa mensal das quatro obtidas ao longo do mês. É vítima do superfaturamento familiar, das licitações falsas, das notas fiscais que não conferem com a realidade. Não resistimos ao pecado parado na estante e profanamos a embalagem de plástico em nossas madrugadas. Era para comer um apenas, para matar a vontade, e ficamos provando todos os sabores até não sobrar nada. A gula é a impossibilidade mental de parar, de dizer chega, de dar um basta. Ela não escuta o corpo. Depende de uma pacata e inofensiva mordida para instalar o seu veloz vírus no sistema. O vício se fortalece pelo arrependimento, pelo ímpeto de retratação. A ânsia de consertar a atitude aprofunda o buraco em que nos metemos. Vem a culpa por não honrar o propósito da lembrança, por deixar a tia Therezinha sem o seu agrado, e adquirimos novo produto. Pena que o processo se repete. Não há controle, nosso egoísmo é desesperado.

Já tivemos longas DRs a respeito da tia Therezinha, de que pararíamos com a farsa, que tomaríamos vergonha na cara, que não poderíamos continuar fazendo essa maldade com ela, que deveríamos mudar, juramos mutuamente uma transformação imediata de caráter para salvar o nosso casamento da ameaça do chocolate. Infelizmente, nenhum dos dois cumpriu a promessa. Cogitamos recorrer à terapia de casal. É nossa caixa de Pandora. Tal como na mitologia grega, temos a recomendação divina de que ela jamais seja aberta. Mas, sem frearmos a nossa curiosidade, rompemos o seu lacre e libertamos as mentiras de seu interior. Culpados, inventamos a esperança de uma nova caixa para não repetir o erro.

Não sei quem começa o saque, quem é o médico e o monstro. Na verdade, agimos em bando, alternando os delitos. Sem percebermos, a caixa já se encontra escancarada. E não adianta fechá-la de modo disfarçado, porque a tia pode notar que os seus tipos favoritos estão faltando. Comemos tudo para recomeçar do zero e comprar outra. E outra. E outra. Tudo se agrava pois eu e Beatriz nos completamos nas afinidades: ela não gosta dos bombons que gosto, eu não gosto dos bombons que ela gosta. O resultado das diferenças é a mais completa devastação do recipiente de papel. Somos duas crianças casadas com a glicose. Por favor, chame um adulto.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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