Proseando

Meu irmãozinho sol

Tenho um grande amigo em tratamento no hospital. Aquele amigo que eu falo a toda hora, que eu me aconselho, que conhece o meu humor de tal modo que é dispensável me corrigir. Não há palavras atravessadas entre nós, a ponte é larga. Amigo mesmo, de conhecer do que gosta e do que não gosta, de não ter trabalho de escolher um presente. Em último caso, nunca vai reclamar de uma nova garrafa de uísque.

Amigo farto, que facilita a minha vida, que me enquadra quando necessário e me liberta da culpa quando sofro à toa. Não diria que é apenas amigo, está na categoria de irmão, porque nos tornamos cúmplices das lembranças mais remotas. Já contei tudo o que sabia de mim para ele e ele contou tudo o que sabia de si para mim. E passamos a limpo as nossas dores às gargalhadas. Não temos o mesmo pai, não temos a mesma mãe, mas temos o mesmo destino: um pelo outro.

Meus dias têm sido a esperança de sua melhora. Tento ocupar o meu tempo até receber o próximo boletim médico. Vou me enganando com os afazeres domésticos, com o nosso Inter, com alguns filmes, ouvindo conversas familiares sem opinar. Não saio da introdução dos livros na minha cabeceira. Desde que foi internado há quatro dias, a minha atenção desapareceu. Descobri que meu amigo é meu marcador de páginas. Minha esposa reparou que estou diferente: lacônico, distraído, evitando abraços mais longos que me ponham a chorar. Talvez não tenha mudado, a dor me mudou sem que eu percebesse.

Como ele é ateu, agora me deixou numa situação difícil, rezando por dois. Por mim, que estou morrendo de saudade dele e por ele, para que possa sair logo da cama – já está perdendo a paciência, coisa que nunca tinha visto antes em sua personalidade. Em nossas conversas por WhatsApp, ele confessou que se recupera a passos de formiga. Tentei incentivá-lo: as formigas são invencíveis, chegam longe. Tentei também dizer que jamais vi uma formiga sozinha, que sempre tem um formigueiro a cuidando de longe. Ele concordou comigo, pois se encontrava muito abatido para ironizar.

Meu amigo lê todos os meus textos antes de ser publicado. Esse é o único que não passou pelos seus olhos, ainda preso na minha garganta. Ele não suporta declarações de amor, mas foi inevitável. Você é meu irmãozinho sol.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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