Proseando

Marmota

Minha esposa, como uma boa mineira, não me ofende. Seus insultos são tão criativos que me põem a pensar. Não dirá nenhuma grosseria, nenhum adjetivo de baixo calão. Utiliza o seu regionalismo para me deixar desconcertado. Lembro que comprei um casaco de retalhos coloridos, eu me sentia na vanguarda do mundo pop, poderoso e extravagante. Os botões do casaco eram acolchoados como os de um chambre. Nem era uma roupa, mas um figurino de artista, uma instalação da Bienal, um parangolé tropicalista de Hélio Oiticica. Queria lacrar!

Viemos para um final de semana em Tiradentes curtir o friozinho de julho numa pousada. Quando me aprontei para jantar, ela me enquadrou:
– Que marmota!

Marmota, para mim, é um animal bonitinho, fofo, roedor que sabe das coisas, dorme por sete meses no inverno. Quem não gostaria de dar um cochilo desses ainda mais durante uma epidemia interminável? Ao pronunciar marmota, automaticamente fiquei imaginando o esquilinho em sua árvore. Abstraí o sentido de suas palavras, assaltado pela ternura da imaginação. Fantasiei uma marmota pedindo emprestado o meu casaco de retalhos. Já estabelecia uma amizade com o bichano, uma sintonia, meu irmãozinho da preguiça. Será que ela sugeria que me encontrava quentinho, protegido, como se fosse o pelo do animal?

Mas a sua cara não combinava com um elogio. Havia uma malícia incompreensível, um deboche no ar. Tal fala de um filme que não está sincronizada com os movimentos da boca da atriz.
– Marmota é bom?
– Não, uai! Trem feio demais. Parece que está me levando para uma festa junina.

Minhas bochechas murcharam. Enfrentava um dilema no relacionamento: ou me mostrava firme e irredutível em minha personalidade e não cedia ou tirava a peça e me apresentava totalmente submisso e influenciável. E, dali por diante, ela passaria a decidir o meu armário, executando limpezas e doações. São nesses momentos inofensivos que nos tornamos filhos ou maridos. Evidente que assumi as minhas predileções, para o que der e vier. No máximo, sofreria o constrangimento de ter a mão recusada na hora de passear pelas calçadas irregulares da cidade histórica. Ela fingiria que não me conhece. Uma hora, nos apresentaríamos novamente e faríamos as pazes.

É assim que funciona para não discutir: chama-se a saudade com o silêncio. Procurei assimilar o motivo de marmota ser ofensivo, para desviar o foco da minha aparência duvidosa. Ou partiu de uma dissimulação, da capacidade do bicho se esconder em tocas e esconderijos. Ou apenas a expressão acentua a sua motricidade desengonçada e esquisita.

Beatriz não arredou o pé da obstinação. Vendo que não iria me desapegar da nova aquisição marmoteira, avisou que estava quente e deveria tirar o casaco. Ri. Só mudou o pretexto.
– Troca, vai por mim. É que está uma jecura!
– Jecura?
– Sim, do Jeca Tatu, personagem caipira do Monteiro Lobato.

Eu que sonhava ser o Visconde de Sabugosa na infância, acabei Jeca na vida adulta. Cada um faz o que pode.

Fabrício Carpinejar
Coluna no jornal O Tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 28/2/2021.
Ilustração de Hélvio.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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