Proseando

Fundo do poço

No fundo do poço, nunca faltará água. Nunca faltará a hidratação dos sonhos. Se está no fundo do poço, significa que não pode mais cair. Está segura. Chegou ao ponto mais baixo da sua idealização. Não sofrerá mais pelo medo de sofrer.

Entende as suas tristezas a ponto de ser amiga delas. A esperança é a melhor amiga das tristezas. O fundo do poço é o nosso eixo, o nosso centro, o impulso da serenidade para subir de novo. O fundo do poço é cercado da gratidão mais autêntica. É a nossa possibilidade de não ser enganado mais pelas aparências e conseguir enxergar quem realmente é a nossa companhia mais leal, quem são os nossos verdadeiros aliados, quem faz a diferença em nossa rotina, quem nos estende a mão.

Livramo-nos finalmente dos oportunistas e interesseiros. É um bem que vem pelo mal, essencializando os nossos afetos. Há uma humildade dos pés descalços nas pedras úmidas. Sentimos o chão sem intermediários. Doloridos, ficamos mais atentos à injustiça ao redor. A dor devolve aquela atenção sensível, de se importar com o sofrimento alheio que se pareça com o nosso. Não pensamos somente com a pressa e a indiferença da ambição. Sabemos ouvir melhor para merecermos falar. Valorizamos as palavras após conhecer o longo silêncio.

O fundo do poço é reflexão duradoura, é revisão crítica de nossas atitudes, é emancipação do ânimo, antes conficionado às circunstâncias. Cumprimos a tarefa espinhosa de assumir as nossas falhas para não repeti-las. Orgulhe-se. Sobreviveu à solidão, é capaz agora de suportar qualquer cobrança, porque aguentou as próprias cobranças e se perdoou. Descobriu que não controla a vida, mas pode controlar o desespero. Quem chega ao fundo do poço torna-se um balde de coragem.

Abraço,
Fabrício Carpinejar.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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