Proseando

Dona Ana

Eu desejava ser hoje Fábio de Melo para poder consolar Fábio de Melo. Ele que sempre tem as palavras certas para os piores momentos, ampara os leitores e fiéis em suas mais profundas crises, que faz a chama da vela subir mais alto com o sopro de seu hálito, que cicatriza silêncios com os seus sermões inspirados, que canta de olhos fechados e coração atento.

Queria tirar um pouco do peso dessa ausência, da morte de sua mãe Dona Ana, 83 anos, de COVID, neste sábado (27/3).Mas ela é exclusivamente dele, resta-me ver a sua dor da janela, da porta. Não tenho licença para entrar em seu sofrimento. No interior do seu interior.

A dor da perda materna é como um ventre, só cabe um de cada vez. Só nasce um de cada vez. É você, Fabinho e sua mãe. Vocês dois vão seguir se comunicando, será diferente, será estranho, será perturbador até, com ventos e pressentimentos, por dentro da saudade, aprendendo um novo idioma de sinais, criando uma conexão por gestos e ritos, lendo avisos pelos objetos herdados e trocando cartas pelos sonhos.

Não existe mais a voz, porque é uma conversa direta de pensamento a pensamento. É um outro cordão umbilical que surge, ao contrário, do filho para a sua mãe. Ela estará invisível, mas sempre presente. Você é que vai alimentá-la agora com a sua alma, com os seus exemplos, prolongando a sua existência entre nós.

Estarei aqui do lado de fora, irmãozinho da noite escura, esperando a sua ressurreição, com o meu ramo de palavras.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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