Proseando

Pipoqueiros gourmet

Mineiro é pipoqueiro gourmet. Toda família tem uma receita especial para as tardes do final de semana, que não abre para mais ninguém, que representa um segredo doméstico com um detalhe a mais de inovação. Ou é bacon ou é coco ou é manteiga de garrafa ou é queijo Minas. Poderia ter um festival de pipoca, com as várias combinações possíveis nos lares locais. Nunca é igual, nunca é a tradicional. Quase como uma sequência de fondue. Há a salgada e a há a doce, feitas em guarnições fartas. Pipoca é levada a sério, como broa de fubá, como bolo de laranja. Exige preparo. Não pode ser artificial, rápida, instantânea dos pacotes prontos.

Quebrei a cara quando me preparei para assistir o primeiro filme com Beatriz em casa. Disse que faria pipoca e ela ficou alucinada. Estranhei o arrebatamento ingênuo, achei bonitinho. Para mim, parecia tão simples e óbvio. Gente apaixonada festeja as banalidades, imaginei, é contente por bobagem.

– Você sabe fazer pipoca?
– Claro! Qualquer um sabe.
Unicamente tive o trabalho de tirar o plástico da embalagem e colocar o invólucro de papel no micro-ondas, seguindo o lembrete de virar para o lado certo. Não deu nem uma sinapse de respeito.

Depois de cinco minutos, apareci com a vasilha na altura do meu riso, como o rei da matinê, o suserano do sofá. Ela murchou de desencanto, sinceramente contrariada. Talvez tenha sido a sua decepção inicial comigo. A frustração fundadora. O indício de que não era perfeito, muito menos mineiro, tomando um solavanco das diferenças regionais. Pegou o conteúdo de meu trabalho e deixou serenando e esfriando na pia da cozinha. Abandonou a minha preguiça.

– É golpe baixo. Assim não vale. Pipoca tem que ser feita na panela. E tratou de cozinhar com uma calma que eu não tinha, que eu desconhecia. A criança dentro dela brincava com o tempo do azeite, curtia a véspera, brilhava com cada mexida e com o espoucar dos fogos de artifício. Inventava-se um São João de repente no meio da tarde, transformando a tarefa em quermesse. Vinham um suspense da curiosidade e a admiração pelo domínio de conhecer o momento certo de abrir a tampa.

– Assim não haverá milho queimado, e os grãos estouram juntos. Fui humilhado de ternura. A pipoca dela era muito melhor do que qualquer uma que já experimentei antes, ombreando com a de mel da minha avó, da minha infância, quando formava bolas carameladas e me engasgava de alegria na disputa com os irmãos de quem pegava a maior quantidade.

Sentamos para ver o filme, e só encarava o lanche cheiroso, os flocos simétricos da quentura. Como ele poderia ser tão saboroso? Como já perdi a minha vida pela pressa? Como os ritos protegem a saudade? Como aquilo com mais demora produz mais envolvimento e mais enamoramento? Por que não cultivei esse hábito mágico com os filhos? Reparando que me tornei pensativo, ela perguntou se estava tudo bem. Estava, até demais. Percebi que a felicidade jamais vai embora, nem sempre temos olhos para ela. Não era só pipoca, mas amor pela boca. O gosto do beijo também era inesquecível.

Fabrício Carpinejar. Coluna no jornal O Tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 3 e 4/4/2021.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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