Proseando

Levante a mão

Levante a mão quem não quer uma paixão avassaladora, que ultrapasse os limites. Que não peça licença, que não tenha bons modos. Que esqueça o passado e dê de ombros ao futuro. Que seja tremor e insuficiência, saudade e ciúme. Com um desejo irrefreável, do qual você não tenha tempo e discernimento de pensar em outra coisa.

Eu baixo os meus dedos para andar de mãos dadas. Não invejo esse sentimento. Não quero ser feliz de qualquer jeito, passando por cima dos outros, traindo ou mentindo, preso na obsessão e inseguro na possessividade. De incondicional, só o amor-próprio.

Desconfio desse transe egoísta, feito de privações e renúncias. Confortável se envolver com alguém isolado de seu contexto. Levá-lo para um lugar longe da sua realidade e brincar com a fantasias.É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem o cuidado com a individualidade.

Não tem graça ficar junto sem o convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias adversas enfraquecendo a vontade. Isso não é vida a dois, mas projeção solteira. Se não há restrições, não é de verdade. Sinceridade é se fazer presente no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês. Não é necessário se isolar para amar, amar é reunir.

O amor não quebra as regras, respeita as regras. Não joga o caráter pela janela. O amor nunca dirá: que os outros se danem. Ele se importa com os outros dentro de sua responsabilidade. Vai valorizar a opinião dos pais, dos avós, dos amigos e, inclusive, dos mortos.

Amor inclui, não exclui. É incluir os filhos. Os animais de estimação. O trabalho. Os livros. Os hábitos. Os problemas. As reclamações. Na paixão, você faz tudo por alguém. No amor, aprende que nem tudo pode ser feito, sob o risco de se anular.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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