Proseando

Fazedores de horas

Não duvido que os aplicativos para dormir não tenham sido criados por mineiros. Para os outros, evidente, porque mineiro não sofre de solenidade para dormir. Há um preciosismo na oferta dos sons relaxantes que me colocou uma pulga atrás da orelha.

Previsíveis o barulho da chuva e da chuva com trovões, até são mesmo esperados, mas chuva na floresta enevoada, ou chuva com macacos e pássaros ou chuva com sol – só pode ser alguém daqui que inventou. É um detalhismo espantoso, que tenho experimentado em minha convivência em Belo Horizonte. São modulações surpreendentes dentro do óbvio, próprias de quem se esforça em esmiuçar a realidade ao máximo.

Ninguém em Minas é genérico. Ninguém fornece informações impessoais. A utilidade é substituída pela transcendência. Todo encontro desemboca numa confissão.

Você pode perguntar onde fica determinada rua, o mineiro encontrará um jeito de dizer que morou naquele bairro ou tem um amigo que reside perto ou que precisará enfrentar uma ladeira perigosa ou que existe uma floricultura na esquina. Nunca dirá de modo sucinto esquerda ou direita, expondo somente as direções para sair do labirinto. Surgirá uma lembrança de um simples e inofensivo pedido de localização.

Aquela história de indicar para “seguir sempre reto” é folclore. O que é verdade é a crença de que é “logo ali”. Mineiro entende que qualquer lugar conhecido é perto. Está acostumado com as pernadas. Importante é chegar, ainda que leve dias para alcançar o destino, a duração é de menos.

Ele não quer apenas ajudar, mas conversar e estabelecer amizade. É um professor do tempo, um fazedor de hora. Além de acolher, oferece comida e roupa lavada.

Mineiro não aluga as palavras, compra-as em definitivo. Explica muito quando algo funciona. E explica muito mais quando não funciona.

Se um conserto vinga, teremos uma aula do que foi feito. Se não funciona, teremos uma segunda aula sobre os obstáculos.

Quem já empreendeu reforma, em uma casa ou apartamento, precisou de mais tempo ouvindo do que testemunhando algum reparo. Eletricistas, hidráulicos, pedreiros não mexem em nada sem uma exposição didática do seu trabalho. E explicam tudo de novo com o fim do serviço. Uma hora de visita estende-se em duas horas entre teoria e prática, com direito a cafezinho e água gelada. Procurar atalhar é ser grosseiro. A disponibilidade representa respeito ao cliente, não um artifício de malandragem para adiar o roteiro pesado de tarefas pela frente.

Por isso que os agendamentos nunca são cumpridos à risca, com monumentais atrasos. Não dão conta de só aparecer, cumprir o programado e se despedir. Guardam um propósito maior de justificar as suas funções.

Lembro que, em minha consulta a um dentista, recebi uma palestra antes do tratamento, com tudo o que iria acontecer, e outra depois do tratamento, com tudo o que eu devia fazer. Houve dois tutoriais gigantes comparando o passado da minha arcada com o seu futuro e, em seguida, com orientações ao seu presente. Eu deixei a cadeira com a sensação de que jamais seria capaz de cuidar dos meus dentes, de que a minha escovação era totalmente equivocada, de que o fio dental era empregado errado, de que era incompetente inclusive para bochechar sozinho.

Fabrício Carpinejar – Coluna no jornal O Tempo.

Caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 1 e 2/5/2021.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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