Proseando

O proibido umbigo

Você pode não gostar que alguém acarinhe o cabelos, ou cutuque as orelhas, mas ainda releva. Só que identifico algo ainda mais irritante e proibitivo: mexer no seu umbigo.

É um recanto para não se aproximar, mesmo que o outro recite o Cântico dos Cânticos, mesmo que tenha intimidade, mesmo que o umbigo surja pela frente, disponível e dourado como uma laranja descascada.

Umbigo, não! Umbigo é uma reserva ecológica, um território fechado desde o nascimento. É uma lei óbvia e unânime da privacidade, como espiar a carteira alheia.

Ainda que o desejo da companhia seja generoso, como o de evitar o transbordamento de suor da piscina natural ou retirar a lã acumulada da camiseta, não há licença para fuxico, para invasão.

Não existe nada tão imperdoável quanto ser surpreendido por uma mão boba. É uma afronta à estima, à individualidade.

Homens e mulheres detestam de modo igual. Não é lugar para carícia, para brincar, para fazer cócegas. Nem é para analisar a textura, se é mais para dentro ou se é mais para fora. Não se toca em pinturas e esculturas em museus.

Esqueça que é parte do corpo. Trata-se de uma cicatriz pessoal e sigilosa.

Tinha que ser alardeado no curso de noivos, tinha que ser um aviso dos pais na hora de começar a namorar: não coloque o dedo no umbigo de ninguém e será feliz!

O umbigo é o nosso ponto de hibernação. O nosso contato com a transcendência. A lembrança do cordão umbilical.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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