Proseando

Sou amigo dos passarinhos

Meu primeiro livro foi de passarinhos mortos, uma agenda antiga, de 1975, de capa verde. No caderno, inventava o nome do passarinho e registrava a data de falecimento.

A turma de meninos do bairro matava as aves com estilingue, por diversão, para testar a pontaria. Ficava com muita pena deles. Das penas que não poderiam mais voar. Eu tinha oito anos e era coveiro dos bichinhos. Recolhia os corpinhos enrugados das entradas dos bueiros e enterrava no quintal dentro de uma caixa de sapatos. Usei todo o estoque de caixas que a minha mãe guardava no porão. Com gravetos caídos do abacateiro, montava a forquilha de uma cruz, para sinalizar onde cada um repousava, para não pisar por descuido em seu sono de pluma. Acreditava que, se não enterrasse as aves, elas não iriam para o céu. Estranho pensar isso: que a ave que vivia no céu não iria para o céu. Dedicava as minhas tardes, no contraturno da escola, a cuidar do meu cemitério, atividade incomum a um menino, mas não a um poeta.

Desde cedo, escrevo para curar as minhas angústias e as tristezas ao redor de mim. A gratidão ressignifica as perdas. Eu me tornei mais generoso com o que sinto, mais apto para partilhar confissões. Não que eu não sofra mais, eu não sofro em vão. Quando hoje vejo um passarinho perto de mim, juro que é um parente agradecendo aquele que velei em minha infância.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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