Proseando

O sofá é um tinder

O modo como a pessoa enxerga o sofá de sua casa diz muito sobre a longevidade do amor. Se ela não para nunca no sofá ou trata o móvel como uma segunda mesa ou armário para empilhar suas roupas, livros e material de trabalho, é que não tem nenhuma perspectiva de uma relação. Não tem espaço para alguma companhia em sua vida. Não há nem lugar para receber uma visita. Não há pouso para o outro sentar e esticar as pernas, muito menos um canto para confortar o coração em trânsito.

A falta de contato com o sofá é pressa, cronômetro, utilidade, tensão. Envolvimentos que começam diretamente na cama do quarto são desfeitos com indiferença.

Se já ela aproveita qualquer folga e fresta de seu tempo para deitar no sofá, chega a cochilar no sofá depois do almoço, prefere o sofá para arejar as ideias, é que tem vocação para fazer intimidade.

A preguiça é o mais alto estágio da cumplicidade. Quanto maior a capacidade de relaxamento no centro da sala, maior será o acolhimento a quem chega.

O sofá, então, passa a ser reconhecido por todas as suas possibilidades criativas. Será ninho da amizade, refúgio das confissões, belvedere da admiração, recreação das implicâncias, um automóvel estacionado para carícias, o gosto pela preliminar e pelos beijos fora de hora, o pacto afetivo para emendar séries e improvisar sessões de cinema com pipoca e refrigerante.

Quando conheci o apartamento de Beatriz, eu intui que iríamos casar quando vi que ela tinha dois sofás. Dois sofás limpos e sem nada por cima, a não ser as almofadas coloridas.

Experimentei um pouquinho de cada um, como quem entra numa loja de colchões para testes. Brinquei de posar, senti os meus ombros festejados pelo espaldar macio, não havia mais urgência para sair dali.

Beatriz, notando a minha alegria, pediu:
– Escolhe o seu.

Diante de tamanha generosidade, eu escolhi residir em seu corpo.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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