Proseando

Fica mais um tiquim

Mineiro não consegue mandar ninguém embora. Quando gosta de alguém, pede para que fique mais um tiquim. Quando não gosta, sente-se culpado pelo próprio desejo para se livrar do incômodo e pede também para que fique mais um cadim.

Na prosa agradável ou desagradável, não sabe se desvencilhar da companhia. Não conhece a palavra despejo. Não fornece indiretas, não foge da sala por um breve momento para gerar o vácuo e o mal-estar. Não é capaz de alegar um compromisso inadiável. Não confessa que conta com alguma tarefa pendente. Não expõe o seu conflito ou o dilema. Simplesmente não fala. Não há como o outro descobrir se é um estorvo ou uma benção.

A visita prende o mineiro. É como um presente que não se pode devolver. Ele se vê confinado dentro de sua casa, impossibilitado de se indispor com o carinho da aparição.

A visita interdita o mineiro. Ele vira estátua, namoradeira de pedra. Congela o olhar, imobiliza a sua rotina. De súplicas para ficar mais um pouquinho e mais um pouquinho, forma-se uma eternidade.

É alguém dizer que vai embora que ele arruma um interrogatório para rebobinar a conversa. Trata-se de um movimento contraditório. Esperava ansiosamente que a pessoa se despedisse, no instante em que ela verbaliza isso, põe-se a recuperar o ímpeto da curiosidade e dispara perguntas sem pé nem cabeça.

Sempre acha que aquele que está saindo só está saindo porque não teve a devida atenção. Trata o adeus como um atestado de incompetência de seu papel de anfitrião.

Não quer correr o risco de que seja espalhado o boato de que não recebe bem. Pior ofensa por aqui é destratar um convidado, demonstra avareza de espírito.

Supera em gravidade o atraso de contas, que mineiro já detesta. É o Serasa da alma. É faltar com a educação e, assim, desrespeitar a memória dos pais.

Quando surge um amigo inesperadamente em nossa residência no fim de semana, já dispenso todos os planos de lazer e entretimento que havia esboçado antes. Esqueço o meu roteiro, ele torna-se a prioridade da família e tudo mais é irrelevante. Nem sofro para engavetar as idealizações. Recomeço o dia do zero.

Fui aprendendo o quanto acolher é importante em Minas. Um ato levado a sério, ao extremo da gentileza, com a abstinência de um sacerdócio e a exclusividade de uma missão. É mais do que abrir a porta para a pessoa voltar, é não deixá-la ir.

Briga-se com unhas e dentes para prolongar a sua permanência. A meia-volta é um sinal de vitória, de que a persuasão foi caprichada, de que os argumentos foram convincentes.

Não existe passada rápida ou um “já volto”. Visita é como procissão, passeio, piquenique. Partir para uma visita corresponde a solenidade de uma viagem, a se manter horas fora.

Tanto que todo mundo entende qualquer atraso quando se alega que estava com visita. É a justificativa que dá certo. Melhor do que as desculpas de trânsito agarrado ou de que se atrapalhou com os filhos. Não se contesta uma visita. É uma verdade universal da vida dessas bandas.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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