Proseando

Telefone para os pais quando tiver tempo

Não telefone para os pais se não tem tempo para oferecer, ainda mais se são idosos. Não telefone entre compromissos, no meio de urgências, quando tem cinco minutinhos, quando está prestes a sair.

Reserve um tempo para a conversa. Dê o mesmo tempo para intimidade que dedica para as reuniões. Feche a agenda naquele horário, para favorecer a ternura e a evocação. Eles se angustiam com a pressa, a pressa sempre rouba os melhores assuntos.

Que seja uma tarefa soberana e exclusiva, não um tapa-buraco de sua corrida frenética para atender aos prazos do trabalho.

É uma desfeita ligar e não dar atenção. É pior do que não lembrar. Porque não compensa jamais a longa espera.

Talvez precise repetir uma frase, talvez eles não estejam ouvindo direito, fique parado para falar, puxe uma cadeira para sentar como se fosse hora do café da tarde com pão quente e manteiga.

Não continue digitando no computador ou respondendo mensagens, não acumule tarefas ao mesmo tempo, murmurando “aham” para acelerar o final e enganar que vem prestando atenção.

São seus pais, ora bolas, seus únicos pais. Não há substitutos.

Não telefone para dar apenas um recado. Para fingir que se importou. Para diminuir a culpa por não ter estado presente. Como se fosse uma mera obrigação.

Que, no momento, apresente mais preocupação com os pais do que consigo mesmo.

Telefone até que o outro lado peça para desligar, até que o outro lado queira se despedir, não interrompendo ou atalhando, não se indispondo com a repetição de histórias, não tentando adivinhar o que pode ser dito, não demonstrando preguiça com um conselho ou preocupação, não responsabilizando o sinal e a internet falhada para interromper de repente, não mentindo que vai entrar no elevador ou no túnel, não remediando a ansiedade com promessas (“depois nos falamos mais”).

Um dia, os pais não estarão mais conosco e só teremos o silêncio pela frente, sem a mínima chance de dividir as novidades e as aflições. Serão aqueles números na agenda com a soma injusta e a dívida da gratidão impagável.

Fabrício Carpinejar

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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