Proseando

Carona do filho que aprendeu a dirigir

Um dos grandes testes de nervos para os pais é ser carona do filho logo quando ele recém tirou a carteira de habilitação. É a primeira saída pública dele com o carro da família. Você deve fingir tranquilidade, mas está morrendo de medo. Não é pelo controle do patrimônio, receio de arranhar o carro ou acionar o seguro, mas porque não deseja atrapalhar. 
Pretende ajudar e percebe que o único jeito é ficar quieto e sofrer em silêncio. Qualquer grito pode gerar um movimento brusco e uma colisão.
Não entende o motivo de ser convidado se tem que se comportar como uma ausência respeitosa. 
A tensão é uma característica da estreia, ainda mais quando não está no papel de protagonista e com a mão no volante. Seus macetes e velhos hábitos de condução não servem para nada, são contrários do que é pregado na autoescola. Talvez nem fosse mais aprovado no exame prático. 
Pais penam em dobro quando seus filhos estão em ação. O resultado não depende mais deles. 
A tentativa é adiar o momento: “não precisa ser hoje”, “pode ser no outro dia”, “tenha paciência”. Só que quando o filho embesta de pegar a chave, não tem como dissuadir. Vai parecer covardia, vai parecer desconfiança, vai parecer desestímulo. 
O purgatório começa na manobra de saída da garagem. A sensação é que os pilares e as paredes estão se movimentando. Acha que o veículo não irá passar, e suspira quando ele escapa por um triz. Agradece a si mesmo por ter fechado o retrovisor para aumentar a margem de segurança. 
Dirigir em Belo Horizonte é um desafio para cardíacos, pelas ladeiras imensas e pelos cruzamentos inesperados. 
Uma distração, e o incauto toma a direção da rodovia para nunca mais voltar. Aquela expressão “segue reto por toda a vida” foi criada por quem se perdeu em algum viaduto. 
A direção em solo mineiro é como se estivesse dentro de um carrinho na montanha-russa, indo do topo ao nível do mar em segundos. 
O básico da metrópole já é cansativo. Isso quando a viagem de batismo da CNH não é para fora da capital, por roteiros íngremes e apertados como Macacos, Lavras Novas, Tiradentes e Ouro Preto - recomendável ter daí uma ambulância como escolta. 
Os riscos são imensos: do veículo morrer no meio de uma via absolutamente inclinada ou ele descer perigosamente por falta de controle dos pedais, para desespero de quem está colado atrás. 
O braço do pai ou da mãe ficam perto do freio de mão. A postos, tremendo. Em caso extremo, puxam a alavanca sem perguntar. 
Depois de cumprido o deslocamento, tudo pode ainda acontecer. Até o último instante não existe comemoração. Estacionar acaba sendo o maior perigo, quando o filho relaxa e crê que conseguiu o feito. 
Os pais chamam atenção de todas as vagas espaçadas e de esquina que encontram nas ruas: aqui, aqui, aqui! 
O filho decide, para mostrar serviço, se enfiar no meio de uma brecha impossível, entre dois carros importados. 
Prepare-se para suar frio. Quando ele entra errado, não tem mais como sair. Seu ímpeto é pular fora e atuar como flanelinha, tirar a camiseta e usá-la como bandeira das balizas. Só não toma essa atitude, pois é extrema e corresponderia a um constrangimento traumático. Então reza, apenas reza, como jamais fez antes. 
Uma amiga, para não atravessar esse calvário, entregou a chave para o filho e disse: pode ir sozinho. 
Ao embarcar, o filho notou que havia uma foto dos pais colada com durex na poltrona do passageiro. 
Se é para acompanhar, melhor mesmo que seja por uma imagem. 

Fabrício Carpinejar 

Coluna no jornal O Tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 14/8 e 15/8/2021.
Ilustração de Hélvio

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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