Proseando

Donos da rua

Como gaúcho, sempre guardei o carro em estacionamentos, seja em shoppings, seja em garagens privadas. Preferia nunca me incomodar. Escolhia a segurança e a comodidade de estar perto do acesso, além de não oferecer chance ao azar e correr riscos com desaparecimento do veículo diante da violência galopante. Partia desse princípio de garantir a tranquilidade para o entretenimento e lazer. Nem me incomodava em questionar a natureza do serviço. No estádio Beira-Rio ou em centros comerciais, pagava o alto preço da minha consciência.

Sou um homem criado nas cancelas e que retira o bilhete no totem eletrônico. Quando comecei a namorar Beatriz, estranhei o seu comportamento rueiro. Ela disse que me buscaria no aeroporto de Confins. Agradeci a gentileza, imaginava descer do avião e encontrá-la de braços abertos na recepção, logo quando atravessasse a porta automática com as malas. Haveria um longo e fanático beijo e, em seguida, ela me perguntaria como foi a viagem. Não vivi a minha idealização romântica. Pelo contrário, ela me mandou uma mensagem aflita, mais parecida com um assalto a banco:
– Estou à esquerda, no fim da pista, com o pisca ligado. Vem logo, antes que eu receba multa.

Não entendi direito por que ela não optou pelo estacionamento. Deduzi que estava com pressa. Tampouco negativei a atitude na hora – a saudade falava mais alto. Acho que caminhei cinco quadras até localizar a sua placa, num lugar ermo, no fim do fim do terminal. Mal sabia que era uma premonição. Ao almoçar em algum bistrô em Lourdes, ela dava voltas e voltas em busca de uma vaga na rua enquanto o restaurante oferecia manobrista. Perdíamos quarenta minutos observando a movimentação dos carros parados e se havia um motorista se aproximando na calçada com intenções de partir – assemelhávamo-nos a um casal de detetives em campana vigiando um suspeito. Meu histórico pragmático me fazia raciocinar que aquilo que ela gastava de gasolina de um lado para o outro compensaria o preço da parada segura. Mas não encontrava tolerância para expor o contraditório.

– De modo nenhum – ela me censurou. Manobrista? O meu dinheiro não é água! Ela classifica como um desperdício pagar algo que pode ser de graça. Ela não é avarenta, nunca recebi tantos presentes de uma mesma pessoa. Aquela ânsia de economia não combinava com o seu perfil generoso, sempre brigando para dividir a conta. Festas, passeios por lojas, bares: em toda programação com ela no volante, repetíamos a tortura de circular catando uma abençoada brecha para baliza. Melhor ainda se fosse longe do rotativo.

Quando vim morar aqui, é que entendi que o seu comportamento derivava de um padrão cultural. Não se resumia a uma excentricidade. De modo geral e orgânico, mineiro foge de estacionamento. Odeia estacionamento. Só aceita em último caso, na hipótese de doença ou de casamento. Ele quer permanecer na rua. A rua é dele, acredita firmemente na liberdade de ir e vir. Não se importa em manobrar de ré numa ladeira, ou em ficar prensado com dificuldades de sair. Não teme buzinadas e muito menos xingamentos. Não morre de medo de furtos e sumiços de pneus. Não se estressa com labirintos, em ir e voltar várias vezes e passar de novo pela porta do estabelecimento com o objetivo obcecado de arranjar um cantinho próximo.

Se estacionar em condições adversas fosse um esporte olímpico, mineiro sairia com uma coleção de medalhas. Faltaria lugar no peito para tanto ouro. Isso se o pódio não fosse um estacionamento pago.

Fabrício Carpinejar


Coluna no jornal O Tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 21/8 e 22/8/2021.

Ilustração de Hélvio

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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