Proseando

Mineiro discorda concordando

Gaúcho grita “não” a qualquer momento, seu advérbio predileto. Professa não no meio do raciocínio de alguém. Já acha que será explorado e exercita a prática da implicância. Compra a briga à vista.

Já o mineiro não declara “não” de modo direto, parcela o desentendimento a perder de vista. Não vai encher os pulmões com uma negativa. Não desperdiça tempo com discussões e enfrentamentos. Não bloqueia a estrada da conversa com barricadas.

Não me lembro de ter ouvido um singelo “não” por aqui com ênfase solitária. O não está sempre casado com uma palavra delicada e mansa, que não dá nunca a impressão de censura ou descontentamento. Mineiro se recusa a algo mudando de assunto, direcionando suas vontades para um outro lugar, manobrando o discurso para onde deseja. Tem um jeitinho só dele de discordar concordando. Qual a sua estratégia persuasiva? Não descarta a proposta alheia, apenas não a prioriza. A companhia jura que vai a algum lugar e termina num diferente. Não sobra luz do sol para cumprir a segunda promessa.

Minha esposa faz com que acredite que estou sempre certo não fazendo nada do que sugiro. Elogia para despistar. Saúda para cancelar. Eu levei três anos para perceber o artifício da sua astúcia. Às vezes, acho que ela é o ghost-writer ancestral do filósofo Arthur Schopenhauer e seu manual “Como vencer um debate sem precisar ter razão”.

Posso convidá-la para uma churrascaria, ela diz que é uma excelente ideia, que vinha sonhando com isso, mas que tal aproveitar a promoção antes no restaurante japonês? Vamos primeiro no japonês e nunca mais na churrascaria. Não há estômago para conciliar ambas gastronomias.

Posso convidá-la para um tira-gosto, ela exalta a sua saudade do boteco, mas fala que não podemos perder antes a degustação de vinhos num restaurante de um amigo. Eu encontro Baco e o amigo e nunca mais aquela coxinha de catupiry.

Posso convidá-la para deitar com uma coberta na Praça do Papa, na indolência do verde, ela confessa que também sente falta de um piquenique, mas que devemos conferir antes a abertura da Casa Cor. Ando quilômetros por dentro de cenários decorados e nunca mais cochilo na sombra das árvores.

Posso convidá-la para o cinema, ela adora a minha iniciativa, mas antes rodamos no shopping por três horas, de loja em loja, aproveitando os saldos, e nunca mais pisamos no escurinho da sessão porque não temos onde deixar as sacolas.

Posso convidá-la para tomar um banho de piscina, ela destaca a nossa sintonia, anuncia que ando lendo os seus pensamentos e que não vem suportando o calor, mas antes pretende passar na tia para entregar um queijo. Será rapidinho. Fico com sunga por baixo da roupa durante toda a interminável visita e nunca mais mergulho nas águas do clube.

Beatriz aprova tudo o que quero e jamais realizo o que quero. Entende o paradoxo? Esse é o mineiro, que nos convence do contrário abolindo o “não” do seu vocabulário.

Fabrício Carpinejar.

Ilustração: Hélvio. Coluna no jornal O tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 18 e 19 de setembro de 2021.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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