Proseando

Pãozinho de queijo

Eu não consigo mais comer pão de queijo fora de Minas. Virou um hábito local. Posso estar em hotel com café da manhã à vontade. Não sinto nenhum apetite. Se alguém me oferece, recuso. Posso estar morrendo de fome, escolho um salgado diferente. Tomo o café preto sozinho, se for o caso.

As vitrines de lanchonetes e lancherias não me pescam mais quando estou longe de casa, ainda que seja a única opção e não tenha tempo de almoçar entre as escalas do avião. Fora do Estado, os pãezinhos são murchos, coitados!, com pouco queijo e muito polvilho. Mesmo que sejam quentinhos, não me apetecem. Parecem tão sem graça, balões estourados por uma agulha. Há um aspecto de pedra, de dormido, de natureza apática, que não mais me convence.

Ter provado o pão de queijo original, com as suas lascas douradas do queijo Meia Cura (se possível de Araxá e da Serra do Salitre) e sua frescura incandescente, fez com que não aceitasse mais imitações, cópias, réplicas. Minha boca recusa. Eu cuspo, não aceita. Estou viciado. Estou estragado pelo resto da vida.

Depois que conheci o paraíso saindo do forno, não experimento mais nada que diminua o impacto da minha conversão. É um pecado qualquer comparação. Não dou desconto. Não há como contemporizar, perdoar, abrir uma exceção. Virei um chato de carteirinha. Eu me tornei uma pessoa sem noção, insuportável, exigente, elitista, bairrista: um sommelier de pãozinho de queijo.

Antes de provar a delícia mineira, lembro que era sociável, aceitava qualquer coisa, não me fazia de difícil, a vida transcorria com simpatia e acolhimento. Jamais negava a oferta de uma cesta por um amigo. O problema nem é o tamanho. Aliás, quanto maior o seu diâmetro, maior a frustração e menor a sua autenticidade. É que nem brigadeiro – só os pequenos me interessam, gotas de puro chocolate e arrebatamento.

Quando estou em Belo Horizonte, com o produto de verdade, a minha devoção é tamanha que jamais dou mordidas diretamente no pão de queijo. Não realizo esse sacrilégio. Quero que meu prazer renda ao máximo. Tiro nacos e mastigo um pouquinho de cada vez. Eu vou partindo a sua textura em pedaços e levando aos lábios devagar. Aprecio as etapas: a fumaça, o calor da novidade, o coração branco derretendo nas minhas mãos. Não sou vítima da pressa, dedico uma total disponibilidade para o momento. Predomina um cuidado de piquenique, o lento ritual de uma manhã ensolarada. Faço uma mesinha com os dedos. Despedaço o pão como quem irá jogar farelos para as aves. Mas eu sou o pássaro. Um passarinho barbudo, de olhos imensos e pernas finas. Arremesso as migalhas para mim. Ao dividir o miolo ao meio, presto uma homenagem ao paladar. Sei que a saudade irá aparecer de repente para me deixar triste no meio de minha alegria. E já terei saudade da repetição e vou precisar suportar a falta.

Em Minas, há duas coisas que não existem em outro lugar: o pão de queijo e o beijo de Beatriz.

Fabrício Carpinejar

Coluna no jornal O tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 25 e 26 de setembro de 2021.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

%d blogueiros gostam disto: