Proseando

Envelhecer é ter bolsos

Estava na Praça da Liberdade com Beatriz e escapei um pouco da altura da nossa alegria de palmeiras imperiais para baixar o meu olhar e observar um casal de velhinhos acomodado no banco de pedra. A esposa colocava, gentilmente, um papelzinho no bolso da camisa do marido. Cheguei a ler os lábios dela:
– Para não perder!

Eu fiquei com aquela cena dormindo dentro de mim. Bateu uma ternura em minha nuca. Fiquei arrepiado pela brisa de uma verdade: envelhecer é ter bolsos. Quando envelhecemos, não abrimos mão de bolsos. Queremos ter o máximo possível deles: nas bermudas, nas calças, nos casacos, nos vestidos. Para transportar remédios, identidades, recados, listas, cartões de visitas, troco, moedas.

Nossa memória vai se estendendo para os tecidos. Criamos gavetas portáteis nas roupas. Não pretendemos esquecer nada. Levamos parte da casa conosco. É uma vida com forro, uma vida longa demais para não ser distribuída em partes. Assim sempre parece que há espaço sobrando, saudade aberta.

Não se confia no celular – pode acabar a bateria. Existe um apreço pelos papeizinhos, pelos recados, pelo roteiro traçado pela sua letra. Há uma necessidade de separar as urgências de um lado do corpo e as amenidades no outro lado.

Do fundo da minha memória, veio a presença poderosa de minha avó Nona Elisa Margarida. Percebia o quanto isso fazia sentido. Até sua camisola tinha bolsos. Era seu luxo. Não dispensava o pequeno esconderijo de documentos e lembretes nem na hora de dormir. Da mesma forma que os fotógrafos e seus coletes acolchoados. Da mesma forma que os cobradores de ônibus e seus trocos contados. Da mesma forma que os donos das fruteiras e suas canetas falhando. Bolsos a mancheia, inclusive no avental. Para o seu terço, o seu dinheirinho, o seu canivete e as chaves da casa. E bolsos vagando de calor, para colocar as mãos ao cair a temperatura no entardecer. Nos seus bolsos, lembro que havia talos e folhas de frutas apanhadas no quintal. E alguns prendedores esquecidos quando saía a toda para recolher as roupas com a chuva. Ela ria à toa não porque era rica, mas porque seu mundo cabia exatamente consigo.

Andava colada às suas necessidades, apegada à sua fé. Os bolsos dispensavam sacolas: sua mala já pronta consigo, no momento em que se vestia. Os bolsos formavam cofres pessoais das banalidades, preparados ao pouso súbito dos grampos de cabelos, dos bilhetes de ônibus e dos desenhos dos netos. Sua agenda estava próxima de sua carne. Não se entristecia com o tempo voando, mergulhava nos vãos para reencontrar sua pele macia. Degustava a sua idade como se fosse o seu próprio carteiro, como quem escreve uma carta para si e se surpreende com a declaração de amor.

Ela avisava que a melhor coisa era esquecer algo no bolso para reencontrar mais tarde. Era como se ganhasse de novo o que ela já tinha.

Fabrício Carpinejar

Coluna no jornal O Tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG), 9 e 10 de outubro de 2021. Ilustração: Hélvio.

Professora universitária - Mestre em Administração e Blogueira nas horas vagas. Cada um tem a parte de mim que conquistou. Sou mulher, fera, amiga, bruxa e fada. Só não sou obrigada.

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